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Internet das Coisas (IoT)

IoT no Brasil em 2026: o que os dados revelam sobre o mercado

A Internet das Coisas (IoT, do inglês Internet of Things) já faz parte de atividades cotidianas de empresas brasileiras. Sensores industriais, medidores inteligentes, dispositivos de rastreamento, sistemas de segurança e equipamentos de telemetria permitem acompanhar ativos físicos, coletar informações e apoiar decisões operacionais.

O avanço dessas tecnologias é visível na expansão da infraestrutura de comunicação entre máquinas. Entretanto, o crescimento do número de dispositivos conectados não significa, necessariamente, que a IoT esteja sendo adotada de forma generalizada pelas empresas.

Essa distinção é importante para compreender o estágio atual do mercado brasileiro. Quantas organizações efetivamente utilizam IoT? Como a adoção varia conforme o porte das empresas? E o que os números indicam sobre as oportunidades de crescimento?

Dados divulgados em 2026 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), vinculado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), e informações da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) ajudam a responder essas perguntas. Quando analisados em conjunto, revelam um mercado em expansão, mas com diferentes níveis de maturidade.

O que os números mostram sobre IoT no Brasil?

Um dos indicadores mais expressivos vem da Anatel. Segundo informações publicadas em dezembro de 2025, o Brasil passou de 10.942.954 estações licenciadas de comunicação máquina a máquina (M2M) em 2021 para 28.276.978 ao final de 2025 [3].

A Agência descreve esse avanço como crescimento superior a 258% no período, com base nos totais licenciados divulgados [3].

A expansão é relevante porque as comunicações M2M fazem parte da infraestrutura que permite conectar equipamentos, medidores, rastreadores e outros dispositivos utilizados em aplicações de IoT.

Mas é necessário interpretar corretamente esse indicador. O número de estações M2M licenciadas não representa a totalidade dos dispositivos IoT existentes no Brasil, nem informa quantas empresas utilizam essas tecnologias. Também não mede, isoladamente, o faturamento ou o retorno econômico do mercado.

Para compreender a adoção empresarial, precisamos recorrer a outra fonte.

A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br, apresentada em 2026, estimou que aproximadamente 77,3 mil empresas brasileiras utilizaram algum tipo de dispositivo inteligente ou IoT em 2025, correspondendo a cerca de 14% do universo empresarial considerado no indicador [1][2].

O levantamento considera empresas formais com dez ou mais pessoas ocupadas, em setores econômicos definidos pela metodologia da pesquisa. Há também uma ressalva importante: a pergunta sobre IoT foi aplicada apenas às empresas que possuíam especialistas, área ou departamento de TI, embora os resultados sejam apresentados em relação ao total de empresas. Essa condição precisa ser considerada na interpretação dos percentuais [2].

Temos, portanto, duas medidas complementares. A Anatel registra a expansão de uma parte importante da infraestrutura de comunicação. O Cetic.br investiga a utilização empresarial de dispositivos inteligentes e IoT. São perspectivas diferentes e não devem ser confundidas.

Mais conexões significam mais empresas utilizando IoT?

A evolução da infraestrutura conectada pode sugerir que a Internet das Coisas esteja se disseminando rapidamente por todos os segmentos empresariais. Os dados de adoção, entretanto, apresentam um cenário mais heterogêneo.

Na pesquisa TIC Empresas, a proporção geral de empresas que utilizaram IoT permaneceu próxima de 14% em 2024 e 2025 [1][2]. Isso não significa que o mercado tenha parado de crescer, pois o indicador não mede a quantidade de dispositivos por empresa, a intensidade de utilização ou o valor econômico das aplicações.

Significa, porém, que a expansão da infraestrutura de comunicação não se traduz automaticamente em aumento equivalente da proporção de empresas usuárias de IoT.

As diferenças por porte reforçam essa interpretação. Segundo o indicador H7 da TIC Empresas 2025, a utilização de dispositivos inteligentes ou IoT foi estimada em 12% entre pequenas empresas, 27% entre médias e 40% entre grandes empresas [2]. Esses percentuais devem ser lidos com a ressalva metodológica da pesquisa.

Entre as grandes empresas, a proporção é significativamente superior à observada entre as pequenas. Esses resultados não permitem identificar, isoladamente, as causas das diferenças. Ainda assim, são compatíveis com a hipótese de que organizações maiores disponham de mais recursos, estruturas técnicas e oportunidades para incorporar dispositivos conectados aos seus processos.

O porte, contudo, não determina sozinho o potencial de utilização. Uma pequena empresa pode obter benefícios relevantes com uma aplicação específica, enquanto uma grande organização pode enfrentar dificuldades para integrar projetos dispersos e ampliar sua utilização.

A questão central não é apenas a capacidade de adquirir equipamentos, mas a existência de problemas concretos que possam ser resolvidos de forma economicamente viável.

Onde estão as oportunidades de crescimento?

A diversidade das aplicações ajuda a compreender por que a IoT representa uma oportunidade para diferentes setores.

Dispositivos conectados podem apoiar o controle de instalações, a gestão de energia, o acompanhamento de ativos logísticos, a supervisão de equipamentos industriais e a manutenção baseada em condições operacionais.

Essas aplicações compartilham um princípio: aproximar informações do ambiente físico dos sistemas utilizados para acompanhar processos e tomar decisões.

Em uma operação logística, por exemplo, a localização de veículos e ativos pode contribuir para o planejamento de entregas. Em uma instalação industrial, sensores podem fornecer informações sobre temperatura, pressão ou vibração. Em edifícios comerciais, dispositivos inteligentes podem apoiar a gestão do consumo de energia.

O valor dessas soluções não decorre simplesmente da presença dos sensores. Ele depende de como as informações são utilizadas e de sua contribuição para os processos da organização.

Essa perspectiva também aparece no estudo The Internet of Things: Catching up to an accelerating opportunity, publicado pela consultoria McKinsey & Company em novembro de 2021 [4].

O relatório estimou que a IoT poderia proporcionar entre US$ 5,5 trilhões e US$ 12,6 trilhões em valor econômico global anual até 2030. Trata-se de uma projeção de potencial econômico elaborada em 2021, não de receita efetivamente realizada nem de uma estimativa específica para o mercado brasileiro [4].

A pesquisa oferece uma perspectiva internacional sobre a importância econômica da IoT, mas seus resultados não devem ser extrapolados diretamente para o Brasil.

O cenário brasileiro precisa ser analisado a partir de suas características próprias, incluindo infraestrutura de comunicação, diversidade regional, estrutura produtiva, capacidade de investimento e necessidades dos diferentes setores.

Nesse contexto, oportunidades de crescimento podem surgir tanto da implantação de novas aplicações quanto da evolução de projetos já existentes.

Uma empresa que utiliza dispositivos conectados para acompanhar um processo pode, por exemplo, ampliar os benefícios ao integrar essas informações a sistemas de manutenção, planejamento ou gestão operacional. O ganho potencial está em tornar os dados efetivamente úteis, e não apenas em aumentar a quantidade de equipamentos instalados.

O que falta para transformar conectividade em valor?

A disponibilidade de dispositivos e redes é uma condição importante para o desenvolvimento da IoT, mas não resolve todos os desafios de implantação.

Uma solução pode funcionar adequadamente em um projeto-piloto e enfrentar dificuldades quando precisa atender centenas ou milhares de equipamentos distribuídos por diferentes localidades.

Nesse estágio, surgem exigências relacionadas à integração de sistemas, diversidade de fabricantes, segurança, manutenção, atualização de dispositivos e continuidade da operação.

A própria McKinsey identificou, em seu estudo de 2021, obstáculos relacionados a custos, gestão da mudança, disponibilidade de competências e cibersegurança. Esses fatores ajudam a explicar por que o potencial econômico estimado para a IoT não se transforma automaticamente em resultados concretos [4].

Outro aspecto importante é a confiabilidade das informações. Uma empresa pode ter dispositivos conectados e, ainda assim, enfrentar problemas com dados desatualizados, medições incorretas ou interrupções na comunicação.

Se os sistemas que dependem dessas informações não conseguem identificar essas situações, o valor operacional da solução fica comprometido.

Por isso, a maturidade de uma iniciativa de IoT deve ser avaliada também pela sua capacidade de funcionar de maneira confiável ao longo do tempo.

Isso envolve planejar não apenas a implantação, mas o ciclo de vida dos equipamentos, as dependências tecnológicas e os processos responsáveis por acompanhar e corrigir problemas.

A experiência acumulada pelas empresas em infraestrutura, integração e operações de tecnologia pode contribuir para essa evolução, desde que adaptada às características dos dispositivos físicos conectados.

Conclusão

Os indicadores disponíveis em 2026 mostram que a Internet das Coisas já possui uma presença relevante na infraestrutura e nas operações empresariais brasileiras, mas sua adoção ainda apresenta diferenças importantes entre organizações e setores.

A expansão das estações M2M licenciadas evidencia o crescimento de uma dimensão da conectividade. Ao mesmo tempo, os resultados da TIC Empresas 2025 mostram que a utilização de IoT não está distribuída de maneira homogênea entre as empresas pesquisadas.

Essas informações apontam para um mercado que ainda oferece oportunidades de expansão e amadurecimento, mas cujo desenvolvimento não deve ser avaliado apenas pela quantidade de dispositivos conectados.

Para gestores e organizações que consideram investir em IoT, a reflexão mais importante é identificar quais problemas podem ser resolvidos, quais resultados são esperados e como as soluções serão integradas e sustentadas ao longo do tempo.

O avanço da IoT será tão relevante quanto a capacidade das empresas de transformar conectividade em informações confiáveis e resultados operacionais.

Compreender onde essas aplicações já estão presentes e como contribuem para diferentes atividades empresariais é o próximo passo dessa análise.

Sobre a Target Solutions

A Target Solutions atua há mais de 15 anos apoiando organizações na evolução de suas operações de infraestrutura, monitoramento, observabilidade, automação e inteligência operacional. Ao longo dessa trajetória, participou de projetos em ambientes complexos de Telecom, Tecnologia, Governo, Energia e grandes empresas, contribuindo para aumentar a eficiência operacional e a confiabilidade dos serviços.

Essa experiência também inclui projetos relacionados à Internet das Coisas (IoT), nos quais conectividade, integração tecnológica e acompanhamento operacional são importantes para transformar dispositivos conectados em soluções úteis às organizações.

Sobre o autor

Paulo Florêncio de Menezes é cofundador da Target Solutions e atua há mais de 15 anos em projetos relacionados a infraestrutura, monitoramento, observabilidade, automação e operações de TI e Telecom.

É graduado em Processamento de Dados pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Dom Cabral (FDC) e Mestrado Profissional em Economia pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Em sua pesquisa de Mestrado, desenvolveu o IBEOP-IA (Índice Brasileiro de Exposição Ocupacional Potencial à Inteligência Artificial), investigando a exposição potencial das ocupações brasileiras às capacidades da IA por meio da combinação de dados ocupacionais, patentes de inteligência artificial e técnicas de processamento de linguagem natural.

Referências

[1] Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nas empresas brasileiras — TIC Empresas 2025 (relatório e tabelas). Disponível em: https://www.cetic.br/pt/tics/pesquisa/2025/empresas/

[2] Cetic.br/NIC.br. Indicador H7 — Empresas que utilizaram dispositivos inteligentes ou Internet das Coisas (TIC Empresas 2025). Disponível em: https://www.cetic.br/pt/tics/pesquisa/2025/empresas/H7/

[3] Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Lei prorroga incentivos tributários para IoT e VSATs e beneficia mais de 29 milhões de estações de telecomunicações no Brasil (notícia, 30/12/2025). Disponível em: https://www.gov.br/anatel/pt-br/assuntos/noticias/lei-prorroga-incentivos-tributarios-para-iot-e-vsats-e-beneficia-mais-de-29-milhoes-de-estacoes-de-telecomunicacoes-no-brasil

[4] McKinsey & Company. The Internet of Things: Catching up to an accelerating opportunity (nov. 2021). Disponível em: https://www.mckinsey.com/capabilities/mckinsey-digital/our-insights/the-internet-of-things-catching-up-to-an-accelerating-opportunity